
Extraido e traduzido da Revista Stern - nº 14 2007
Tradução de Manuela Acássia Accácio
O mundo como praia
Uma vez na vida deseja-se achá-la, a ilha dos bem aventurados. Para isso, Santa Catarina, no sul do Brasil é uma candidata quentíssima!
Por Carmen Stephan e Gunnar Knechtel
(Fotos)
O proprietário da "Pousada Edelweiß" tem um
bigode grisalho e olhar tão sereno como um lago. Quando Laurindo Wenzel divaga
sobre Santa Catarina, ele utiliza com freqüência palavras como "schee" (bela)
e "hibbsch" (bonita) e encosta-se com um leve sorriso sobre o terraço
envidraçado, que se eleva sobre um jardim com arbustos e flores silvestres.
É quase como se fosse numa vegetação da Baviera - não brilhasse tanto o sol,
abaixo da costa do Atlântico. A ilha de Santa Catarina, no sul do Brasil,
se tornou o novo destino de viagem preferido pelos brasileiros, devido à sua
influência européia. Existem mais de 40 praias insulares em Santa Catarina,
uma mais encantadora do que a outra. Alguns dos moradores, chamados Manézinhos,
parecem já vir ao mundo em roupa de banho e com prancha de surfe debaixo do
braço. "Todos aqui estão sempre a caminho da praia", diz Laurindo Wenzel,
que assim como muitos outros no Estado de Santa Catarina tem descendencia
alemã, imigrados no final do século 19. O chefe do Hotel estende um mapa sobre
a mesa. As dez melhores praias é possível de se trabalhar tranqüilamente em
uma semana. Ele faz, rapidamente, algumas cruzes sobre o mapa. O viajante
deveria iniciar pela Joaquina, a praia do surfista, conhecida mundialmente.
É aqui que o tenista profissional Gustavo Kuerten aprecia ficar sobre uma
prancha. Ele é de Florianópolis, cidade com um milhão de moradores, metade
da qual fica sobre a ilha de Santa Catarina e a outra sobre o continente.
A verdadeira atração oculta-se, no entanto, a 200 metros antes da praia, onde
as dunas de areia se sobrepõem, nas quais estão fincadas pranchas coloridas.
Bruno de 17 anos aluga-as por cinco reais a hora. Ele começou com o surfe
na areia ainda quando criança; esporte que supostamente foi inventado na Ilha,
porque os surfistas procuravam um passatempo quando havia má ondulação. Bruno
se assemelha a um jovem Tom Cruise, e seu objetivo, sua Hollywood é o Monte
Kaolino de 150 metros de altura no oeste da Baviera, onde acontecem os campeonatos
mundiais de surfe na areia; ele quer algum dia conseguir ir até lá. Seu grande
desejo é, contudo, ir alguma vez nos Alpes. "Neve, como será
que
se sente isso?", pergunta Bruno balançando a cabeça. Ruas estreitas curvam-se
em torno de colinas intensamente verdes no caminho em direção ao sul. Os moradores
da Ilha ficam sentados em frente a pequenas casas azuis em cadeiras dobradiças,
tomam uma cerveja e observam descontraídos, como se estivessem em férias.
Em pequenos bares construídos de madeira, é vendido caldo de cana fresco.
Os gramados de alguns jardins em frente das casas, são aparados com tanta
perfeição, como numa pequena cidade alemã. Uma igreja, com um
sino de prata, recorda a velha Europa.
Na metade do século 18, os portugueses enviaram para Santa Catarina mais de 6.000 moradores do arquipélago dos Açores, pois estes já não tinham mais o que comer em sua terra natal e por terem sido castigados por terremotos. Dorvalicio Martins é tambem descendente de açorianos. Logo atrás da pequena aldeia da Costeira do Ribeirão da Ilha, num estreito trecho de praia intacta, fica o seu ranchinho.
O pescador de 80 anos de idade, puxou a pouco
uma rede cheia de ostras, para baixo do seu teto com colunas de madeira. Alguns
homens da comunidade ficam sentados junto ao mar, onde Dorvalício joga
suas redes, fazendo circular um copo de samba, como se esse fosse um cachimbo
da paz. Enquanto isso, Dorvalício raspa com uma faca as cascas das ostras
para limpá-las, sendo que agora elas cintilam como pedras de cristal. Dorvalício
passou toda a sua vida na água. Ele sabe, que as pessoas aqui sempre estão
em busca da praia perfeita - para tomar banho de sol e para deslizar nas ondas.
Mas o especial acontece todas as manhãs após o alvorecer em cada uma das cem
praias, quando a água ainda está calma e uma luz de cor alaranjada brilha
sobre a superfície. "Então", diz Dorvalício, "o mar está tão bonito que não
dá nenhuma vontade de incomodá-lo". Essa verdade vale também para praias,
como a do Saquinho, que se encontra quase na extremidade meridional de Santa
Catarina, sendo alcançada apenas a pé, numa caminhada de duas horas. Um caminho
conduz através de uma densa floresta virgem, na qual borboletas azuis agitam-se
e uma cachoeira murmura. Após meia hora, a mata se ilumina e lá está uma praia
solitária, sem nenhum vestígio se quer de pé ou de pata na areia - e como
se essa calmaria não fosse suficientemente bíblica, até um par de golfinhos
desfilar próximo à costa, provavelmente a procura da arca de Noé. "Hoje eu
vi uma baleia", está sobre um bilhete, distante apenas poucos quilômetros
em linha reta, no "Bar do Arante", em cuja praia do Pântano do Sul, deveria-se
deixar o dia transcorrer. Paredes, toalhas, colunas de madeira, cada centímetro
quadrado no bar está coberto com pequenos bilhetinhos, nos quais desde 1958
sonhadores, desesperados, ditosos, sóbrios e bêbados deixaram seus pensamentos.
Toda tardinha quando o sol mergulha no mar, frente às janelas abertas, e os
pescadores recolhem suas redes, o senhor Arante Ravels coloca o "Bolero".
Então alguns juramentos de amor são rabiscados ainda rapidamente sobre os
bilhetes: "Tanto mar. Tanta saudad
e.
Ondas vêm e vão. Assim como, os pensamentos em ti".
Para o próximo dia, Laurindo Wenzel recomenda um passeio na praia da Armação. "Observem o revoar das gaivotas", aconselha ele. Armação é uma antiga comunidade de pescadores com igreja portuguesa e uma praça de mercado notável.
A praia límpida, a qual se alcança pelas escadas de pedra, é povoado principalmente por famílias - e de fato um jovem caminha agora em direção ao mar com uma gaiola de pássaro. Ele veste shorts, uma camisa regata e usa uma corrente de ouro. "Meu curió hoje está mal. Ele cantou muito pouco", diz ele, sem tirar o seu óculos de sol, "por isso quero trazê-lo um pouco ao ar livre". O curió se assemelha ao canário e tem uma voz magnífica. Em Florianópolis acontece regularmente um campeonato de curiós, dos quais os mais valiosos chegam a custar mais de 30 000 euros, por isso algumas pessoas chegam a trocar carro e casa pelo investimento de um valor tão cantarolante.
Nenhum curió, mas papagaios e talvez até
tucanos há para se ver na pequena ilha vizinha, Campeche, onde para se chegar,
se toma o rumo da praia da Armação e de lá se toma um bote motorizado.
A ilustre praia inclui-se entre as mais bonitas de Santa Catarina: as palmeiras
brotam aqui como dente-de-leão num prado de verão, cactos em flor moldam-se
nos rochedos, e a água é cristalina - condições ideais para as gigantescas
tartarugas mergulharem. Aos turistas, que correm da crueldade de São Paulo,
parece o exótico impressionar menos; eles sentem a tranqüilidade e segurança
em Santa Catarina. Eles conversam animadamente com os seus conhecidos de viagem,
os argentinos em portunhol, que por sua vez respondem amigavelmente num português
arranhado, como se a velha rivalidade entre os países vizinhos não
existisse de fato, apenas num estádio de futebol. No dia seguinte, argentinos
e brasileiros andam até mesmo amistosamente, unidos sobre uma Banana Boat
ao longo da praia dos Ingleses. A praia dos ingleses fica ao norte e tem seu
nome devido a um navio inglês que ali afundou. Quem gosta de barulho e agito,
aqui é o lugar certo. Os turistas brindam com caipirinhas e agua de coco;
algumas beldades permitem que o vizinho lhe passe creme nas costas, sobre
a toalha de banho de dois metros de comprimento. Auê do Ballermann. O inverso
disso, se encontra alguns quilômetros dali, afastados na desconhecida praia
de Moçambique, que melhor se conhece a cavalo. O passeio a cavalo em grupo
conduz através das dunas de beleza sublime. Em alguns lugares crescem flores
lilases na areia. O caminho leva, então, por um bosque com pinheiros, cujos
troncos reluzem quase prateado. O ar está carregado de uma trovoada ruidosa
e de deleite; ouve-se o mar muito antes de se vê-lo. Os cavalgadores precisam
gritar, para poderem se entender. Cavalgada maravilhosa e boa, sorri Laurindo
Wenzel satisfeito, mas uma verdadeira aventura se experimentaria, é claro,
em Blumenau. No lugar se vê, como os brasileiros imaginam a Alemanha. Blumenau
é um destino de excursão preferido para os veranistas insulares - não apenas
no outono, quando começa a maior Oktoberfest da Amér
ica
do Sul. Um restaurante se chama "Frohsinn" (alegria), uma loja de cosméticos
"Fräulein" (senhorita), e a prefeitura parece de longe como uma construção
em enxaimel; no entanto, numa observação mais detalhada as ripas revelam-se
pregadas. Nas ruas da "Vila Germânica" os turistas compram CDs dos Flippers
e Kastelruther Spatzen. Um visitante põe uma imitação de calças de couro,
assim como um avental em volta de si e se deixa fotografar - no reverso usa
um calção de banho. Marriete, 19 anos, de olhos azuis usa um traje típico
e distribui informações aos turistas. Ela não fala alemão, nunca esteve
na Alemanha, mas de uma coisa ela está convencida: "As pessoas de lá
são certamente muito engraçadas e festejam com tanto prazer quanto os brasileiros".
Qualquer dia ela quer conhecer pessoalmente o país, ao qual lhe fica tão perto
e é claro tão distante. Depois da escola ela quer, contudo, viver primeiramente
em Santa Catarina - e surfar na praia Mole. "Mole" significa traduzido em
alemão "macio, suave" e isso decorre pelo fato que se afunda até os tornozelos
na areia branca. O mar é cercado de pedras arredondadas, que se parecem com
bolas de boliche, mas naturalmente um outro esporte desempenha aqui o papel
principal. O que, em compensação, faz com que a morena Ingrid se enfade. Ela
usa a parte de baixo do biquíni, na parte de cima uma baby look preta e apertada,
sobre a qual duas mãos na cor néon pink estão gravadas. A argentina passou
28 horas com suas amigas num ônibus, para "se divertir definitivamente" em
Santa Catarina. E agora isso. Os homens ficam de pé, armados com uma prancha,
ao lado de Ingrid e olham o mar fixamente como que hipnotizados. Quando um
de seus colegas consegue pegar uma onda especialmente boa, se enchem de intenso
júbilo, como se o Brasil tivesse se tornado, agora mesmo, campeão mundial.
"Mas amanhã", diz Ingrid e balança a cabeça sorridente, "iremos para uma outra
praia". Ela ainda tem algumas para escolha. A melhor praia, no entanto, ela
deveria guardar até a última noite. No mapa, ela está marcada: Barra da Lagoa,
perto da lagoa no meio da Ilha. Sobre uma ponte oscilante como em filme de
pirata, o viajante chega numa colina, na qual casinhas coloridas estão dispersas.
A placa escrita à mão "Prainha" indica o caminho para um paraíso escondido.
No alto fica o Bar Prainha, abaixo do qual a praia branca e estreita, delimitada
por rochedos, se abre ao mar como uma concha. Alguns garotos jogam futebol
ao pôr-do-sol, no Bar se dedilha e tamboreia um samba ao vivo. Agora se poderia
jurar estar no Brasil - não se beberia uma cerveja, que tem o nome de "Eisenbahn".
Tópicos e Informaçoes
Para as praias dos sonhos
Partida (da Alemanha): vôo de Frankfurt para Florianópolis com baldeação em São Paulo ou Rio de Janeiro a partir de 900 euros inclusive taxas (ida e volta). Na Ilha pode-se andar de táxi ou alugar um carro. Pacote de viagem individual: Viventura, www.viventura.de, Tel.: 030/61 67 55 80
Período de viagem: o ano todo. De dezembro até fevereiro as temperaturas são agradavelmente quentes, em torno de 30 graus. Normalmente é ensolarado, apenas ocasionalmente surgem nuvens de trovoada, o que pode tornar-se, então, tempestuoso.
Hospedagem: Pousada Edelweiss, Rua Luiz Pedro Ferreira, 86, José Mendes - Florianópolis, www.pousadaedelweiss. com.br, Tel.: 005/ 48/32 25 75 91. Um hotel simples, mas confortável e agradável. O proprietário Laurindo Wenzel fala alemão. Preços: Quarto de casal com café da manhã incluso, a partir de 40 euros.
Pousada do Museu: um hotel pequeno junto à praia com Museu dos Açores em anexo, www.pousadadomuseu.com.br, quarto de casal a partir de 42 euros, Tel.: 0055/48/32 37 81 48.
Restaurante: Bar do Arante, rua Abelardo Otacílio Gomes, 254, praia do Pântano do Sul, Te.: 0055/48/3237 70 22.
Os pontos de encontro de surfistas são a "Barraca do Mole" na praia Mole (Bar de praia com música ao vivo e DJs após o pôr-do-sol) e o "Paçai" (Bar tropical com redes e vista sobre a lagoa), caipirinha de primeira classe e Açai em todas as variações; O Paçai se encontra na rua que conduz da praia Mole para o Retiro da Lagoa.
Cavalgada: "Cabanha do Toque", www. cabanha.dotoque.com.br, Tel.: 0055/48/ 3269-27 56, passeio a cavalo de duas horas entre as dunas em direção à praia de Moçambique, cerca de 20 euros.
Ponto de encontro de pescadores: Quem quiser comprar ostras junto ao Dorvalício Martins em seu ranchinho na praia, deve dirigir da rodovia Baldicero Filomeno em direção ao sul. Pouco depois do ponto de ônibus da Costeira do Ribeirão da Ilha fica o lugar a beira-mar, onde Dorvalício Martins puxa suas redes.
Excursões: Da Armação para a Ilha do Campeche há barcos que fazem o transporte várias vezes ao dia.
Para Blumenau, que fica 140 quilômetros distante, dirija melhor com carro locado, ou reserve um dos passeios, que são ofertados nos hotéis e pousadas (tambem na Pousada Edelweiss). Há boa comida alemã no restaurante "Frohsinn", rua Gertrud Sierich, Blumenau Tel.: 0055/47/322-21 37. Em Blumenau, a anual Oktoberfest, ao contrário de Munique, começa de fato em outubro, neste ano realiza-se do dia 4 até 21 de outubro.
Extraido e traduzido da Revista Stern -
nº 14 2007
Tradução de Manuela Acássia Accácio